top of page

DO PÍER

Salitre, nervo e pensamento

Eu Te Vejo

  • 15 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Então, eu existo para você



Há alguns anos, fiquei encantada com uma matéria de título simples e forte: Sawubona e Shikoba. A chamada me cativou de imediato, assim como a sonoridade daquelas palavras. O texto abordava culturas do sul da África, mais especificamente os povos de língua zulu, onde Sawubona e Shikoba estão ligados a uma forma de viver em comunidade e de reconhecimento mútuo.


Sawubona (ou Sawabona, grafia mais comum em traduções populares) significa "Eu te vejo, eu te respeito, você é importante para mim", e Shikoba responde "Então, eu existo para você" ou "Então, eu sou bom e existo para você".


Quando alguém se comporta de forma inadequada, os membros da tribo conduzem essa pessoa ao centro da aldeia e a cercam. Durante dois dias, recordam-lhe todas as coisas boas que já fez. A crença que sustenta essa prática é a de que muitos erros comuns, não são perversidade em estado puro, mas tentativas mal formuladas de lidar com dor, medo ou desamparo. O foco é na reintegração e na lembrança das qualidades intrínsecas da pessoa.


Aplicar o princípio de Sawubona não é simples. Olhar verdadeiramente para alguém exige muito mais do que empatia ocasional. Essa postura demanda a renúncia do ego, a suspensão das defesas e o abandono da posição confortável de quem julga à distância. Ao nos colocar nesse lugar, somos obrigados a abrir mão de certezas, de narrativas prontas e, frequentemente, da vaidade moral de estar sempre certo. Afinal, é um gesto que requer maturidade e uma profunda capacidade de contextualização.


Vale a reflexão sobre o quanto certas culturas, outrora rotuladas como "selvagens", revelaram ao longo do tempo uma integridade muitas vezes superior à daquelas que se autodenominavam, sem hesitação, mais evoluídas. Não apenas na história passada, mas também no presente, e, talvez, mais perto de nós do que gostaríamos de admitir, mesmo que de forma rarefeita, interrompida, imperfeita.


Ainda assim, haverá momentos em que diremos Sawubona, e é essencial que o façamos; e, em outros, seremos nós a responder: "então, eu existo para você".



Beijo, beijo

Jocasta 


Feliz 2026! 🥂


 
 

Assine Agora

Obrigada pelo envio!

© 2026 • Jocasta • Bethaville I • Todos os direitos reservados

bottom of page