É Primavera, Te Amo
- 15 de set. de 2025
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Atualizado: há 2 dias
Casamento da raposa: o instante em que a vida se equilibra
A chuva havia acabado de cair, e no pátio da escola ainda exalava aquele cheiro de terra molhada, um tipo de perfume que floresce no fim da tarde. Uma poça d’água se formou perto do muro e refletia o céu que se abria, ainda salpicado de nuvens. O olhar de uma criança se inclinou para dentro da poça, mas logo foi puxado para cima, onde um arco-íris nascia, tímido e imenso ao mesmo tempo. Era uma cena simples, mas parecia um segredo revelado. O mundo podia ser cruel, mas também sabia ser generoso. Bastava chover, e depois o sol vir, para que o céu se pintasse de esperança.
E de alguma forma, aquele céu meio cinza, meio dourado, com luz espalhada por entre as gotas, fez sentido para ela. Guardou aquilo como quem guarda um bilhete. Dias assim, com chuva e sol, também conhecido como "casamento da raposa", no fim da tarde, começaram a parecer especiais. Era como se o céu se abrisse só um pouco, só o suficiente, só para mostrar que podia ser mais do que um teto. Ela ouviu, ao longe, alguém comentar “estamos na primavera”. E a palavra ficou mais forte que a explicação. Primavera era aquele tipo de céu. Antes de entender o calendário, já entendia o clima. Porque certas coisas nem sempre chegam primeiro pela razão.
Foi assim que aprendeu uma estação antes mesmo de aprender a palavra. Cecília Meireles dizia que a educação precisa passar pela sensibilidade, e Drummond lembrava que a poesia está naquilo que nos surpreende no cotidiano. Naquele instante, a pedagogia da vida não estava no quadro da sala de aula, mas na experiência sensorial, no reflexo da água, na descoberta de uma palavra que ganhava corpo porque vinha acompanhada de encantamento.
Os anos passaram, e o significado daquilo ficou como um fundo musical, primeiro ao longe, depois em mim. Mais tarde, percebi que minha alma também se inclinava à densidade outonal. Como se o outono fosse o amor em silêncio, o abraço guardado; e a primavera, o amor em voz, a palavra que floresce, escapa e, de tempos em tempos, parafraseia Tim Maia: “é primavera, te amo”.
Essa dualidade não era divergência, mas complemento, dois lados de um mesmo fascínio que se tocam no equinócio: fenômeno astronômico que ocorre exatamente duas vezes por ano, em março e em setembro. O nome diz o resto: equinócio, do latim aequinoctium, “noite igual”. Não dura um mês; é um instante preciso, quando o Sol cruza a Linha do Equador e o dia e a noite quase se igualam em duração. No hemisfério sul, o de março abre o outono, e o de setembro anuncia a primavera; no hemisfério norte, o inverso, março traz a primavera e setembro abre o outono. Essa coreografia celeste, tão exata, sempre me lembrou que tudo no mundo é feito de ciclos e contrapontos, como naquela descoberta da infância: sol e chuva no mesmo céu e a certeza que ficou gravada: coisas bonitas aconteciam na primavera.
Vez ou outra precisamos permitir que o espírito curioso e encantado em nós volte a respirar, a se maravilhar com o aprender e a se surpreender ao ensinar. Os dias serão muitos: de chuva e de sol, de frio e de calor intenso. E sempre haverá uma primavera para nos lembrar que, mesmo sobre o chão molhado, o céu inteiro pode se aninhar numa poça mágica. Tudo depende de como escolhemos olhar, tal qual uma criança que sabe que a beleza reside no instante.
Beijo, beijo
Jocasta 🌷



